Realizar o controle interno da qualidade pode parecer, para muitos, um trabalho ou um gasto de tempo desnecessário. Alguns acreditam que cuidar do controle pode ser uma coisa simples, parcial, com meias medidas e meios controles. Pensam que podem fazer algo mais simples e que assim atendem às necessidades.

São aqueles que realizam o controle apenas por comparação do resultado com a faixa de mínimo e máximo da bula do material. Nem sequer têm o cálculo do Coeficiente de Variação. Ou então os que fazem com planilhas do Excel, que embora seja um bom software, não é adequado para a função de controle em laboratórios clínicos.

O QualiChart defende que o Controle da Qualidade é coisa séria e deve ser encarado de forma correta e com eficácia. Fazer apenas por fazer é perda de tempo. Fazer de forma incorreta é perda de tempo e de dinheiro e significa desrespeito para com o cliente.

Há itens que consideramos os mais significativos, para estabelecer as bases racionais porque o profissional da área de laboratório clínico deve se engajar de forma intensa em atividades pela qualidade do fruto do seu trabalho. Eles são:

  • Profissionalismo;
  • Avanços tecnológicos favoráveis;
  • Gerenciamento do laboratório;
  • Ética;
  • Acreditação do laboratório;
  • Conformidade legal.

Cada item será tratado em um post diferente nesta série, para melhor esclarecer cada um. Neste texto falaremos do profissionalismo.

Profissionalismo

Quem atua em laboratórios clínicos é um profissional muito diferenciado e é um provedor de informação. Sua formação o fez assim, capaz de prestar esse serviço à comunidade, médicos e pacientes. Seu papel principal é usar a informação especializada de melhor padrão científico, atender o cliente e obter amostras adequadas, analisar com boas metodologias os materiais biológicos, entregar informação de qualidade. Para isso usa muito as informações específicas, próprias do seu contexto de trabalho que é o exame laboratorial. No segmento da saúde é grande o desafio para os profissionais, que precisam se esforçar, para aprimorar o recebimento e a busca de informações contextualizadas, para construírem o conhecimento.

Entendemos que o profissional de laboratório é um provedor de informação, representada pelo laudo dos exames que realiza. Ele constrói a informação a partir de dados brutos, obtidos de metodologias de análises que cuida de manter estáveis e com desempenho reconhecido. O bom desenvolvimento desses processos envolvidos é que garante a qualidade dos seus resultados e do seu trabalho.

Vamos abordar a sequência de significado dos termos que ajudam a compreender a informação e como se enquadra o profissional de nível superior, no que chamamos equação DICE. Nela procuramos mostrar quem tem condições de melhor interpretar e julgar as informações.

Dado: É o elemento primário no processo de formação do conhecimento e é geralmente um número. É desprovido de referencial explicativo e não possibilita a tomada de decisão. É o insumo básico dos computadores e das ferramentas estatísticas. Isoladamente pode ser sem significado, mas a qualidade desse dado determinará o valor da informação que ele poderá compor. No laboratório clínico, o dado pode ser o resultado de uma análise. Exemplo: 136

Informação: A informação é o grande oceano acumulado pela humanidade em toda a sua existência, disponível de forma volumosa pela internet e acessível a todos que são no mínimo alfabetizados em tecnologia. É possível obter informações em diferentes fontes e com muita facilidade, o que pode ser uma questão benéfica, ou maléfica.

Sim, porque ai se exige caracterização da qualidade da fonte, além de critérios de julgamento por parte de quem vai usar a informação. Essa tarefa é complexa, mas pode ser bem feita por quem tem formação para tal, ou seja, profissional de nível superior, da respectiva área do conhecimento.

Com a internet, apresentando alta disponibilidade, difusão e liberdade de acesso, todos os pacientes têm acesso às Informações Sobre Saúde (ISS), mas, por conceito, não saberão o que fazer com a maioria delas, ou podem se confundir. Existem muitos estudos sobre o uso das ISS por parte dos pacientes, confrontando às vezes os profissionais em suas condutas. Lidar com propriedade com as informações, respeitando os limites pessoais é um desafio para todos e é uma realidade que deve ser enfocada também pelo lado bom: o paciente bem informado pode ser um aliado no cuidado da sua saúde e da de seus familiares.

O laboratório clínico tem por função entregar informação e o faz na forma de laudos de exames. Essa informação é de grande importância, podendo ser muitas vezes decisiva, para o indivíduo que cedeu sua amostra biológica, a pedido de outro profissional.

Interpretação do resultado

Exemplo: Glicose (sangue): 136 mg/dl (Valores de referência: 60 – 99 mg/dl)

Observem que o dado anteriormente apresentado faz parte agora da informação, ganhou contexto neste laudo, de tal forma que permite interpretação e tomada de decisão. Mas, adverte-se que isso deve ser feito por parte de quem tem formação para tal. Diferentes pessoas farão diferentes leituras dessa informação, veja abaixo:

  • O profissional do laboratório considerará que o resultado representa uma anormalidade para o paciente, porque sabe que a amostra foi colhida em condições de jejum definido, foi processada adequadamente, analisada em um sistema estável e sob controle interno e que até ao final, no resultado impresso, não houve erro. Ele deve ser capaz de empregar todo o seu conhecimento e assegurar, por meio do seu Sistema de Gestão da Qualidade, que o resultado é o mais próximo da realidade do paciente, considerada a variabilidade inerente aos sistemas analíticos. Isso é o que esperam dele, paciente e médico assistente. O profissionalismo se define aí como um garantidor da qualidade dessa informação mas a aplicação para o paciente caberá a outro profissional.
  • O paciente que receber esse laudo vai de imediato classificar seu resultado como alterado, baseado na informação fornecida pelo laboratório, que diz que para aquele método a faixa de referência é de 60-99 mgdl. Em conversas com pessoas concluirá que “está diabético”. Vale aí a observação importante e frequente que é prudentemente acrescentada na maioria dos resultados dos laboratórios: “Somente o seu médico tem condições de avaliar esse resultado de forma adequada”. Muito apropriada essa ressalva. Ao tirar suas próprias conclusões o paciente errará muito.
  • O médico solicitante avaliará o resultado e, pelos conhecimentos que possui dos sintomas e sinais do paciente, dos critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos critérios estabelecidos por comitês e obtidos em outros contextos, tratará com zelo profissional essa informação. Deverá solicitar novo exame, com intervalo de 10 dias e, se o resultado for também superior a 126mg/dl, deverá firmar o diagnóstico de diabetes. A partir daí ampliará o diagnóstico, juntando mais conhecimentos e, sobretudo, baseando-se na sua “Experiência Profissional”, para estabelecer condutas propedêuticas, terapêuticas e educativas.

Podemos perceber que há dois profissionais envolvidos na avaliação do laudo, além do paciente, que fica numa posição intermediária e um tanto passiva, naturalmente. A ele cabe confiar nos dois profissionais a quem recorreu: um, que detém conhecimento, experiência e metodologias para obter a melhor medida daquela grandeza no material biológico apropriado e assegurar que o resultado é a melhor expressão da realidade do paciente; o outro, que detém o conhecimento para melhor reunir as informações clínicas e laboratoriais, integrando-as no contexto diagnóstico, ou de acompanhamento.

A melhor atitude do profissional de laboratório o obriga a assegurar a qualidade da informação que entrega e assim contribuir para a excelência da prática do médico. Para o médico, a melhor atitude está na cuidadosa aplicação da informação e a tomada de decisões para o benefício do paciente.

por Dr. Silvio Basques

Veja outros posts desta série.

6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 1- Profissionalismo
6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 2- Avanços Tecnológicos Favoráveis
6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 3- Gerenciamento do Laboratório
6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 4- Ética
6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 5- Acreditação dos Laboratórios
6 razões para cuidar do Controle Interno da Qualidade: 6- RDC 302/2005: O Regulamento dos Laboratórios