Muitas práticas para o Controle Interno da Qualidade (CIQ) são de uso corrente há muito anos. Profissionais que as adotaram permanecem com seu uso, apesar de se haver demonstrado que algumas são inadequadas. Isso porque há uma inércia para as mudanças, para enfrentar eventuais barreiras, ou o desconhecimento de novas e boas práticas. O desafio que se coloca é como implantar um bom método de controle e usá-lo bem, de forma correta e produtiva, ou seja, fazer bem o bom controle.

Em contatos com profissionais que se cadastraram para o uso do programa QualiChart Online, tenho visto as diferentes formas antes adotadas para o CIQ, algumas passíveis de críticas. Achei válido trazer para discussão quatro aspectos que me foram apresentados, nessas atividades de apoio.

1.Falta tempo para eu cuidar das tarefas do CIQ.

O tempo é um desafio para todos, em qualquer atividade. Nunca temos tempo suficiente para tudo, para o trabalho necessário, para o descanso, para a família etc. Por isso, agregamos os colaboradores e devemos administrar nosso tempo e o deles. Para a melhor gestão do tempo e obtenção dos resultados que pretendemos, devemos usar a estratégia de delegar funções.

Para aproveitar ao máximo seu tempo é preciso obter  o engajamento da equipe. Aprenda a delegar, dividir tarefas e trabalhar com seu time. Mantenha altas as expectativas de melhorias: as pessoas se esforçarão.

Você como gestor da qualidade deve cuidar do planejamento, aquisições de insumos e sistemas, técnicas analíticas, dos custos, de sistemas que perderam a estabilidade, de medidas corretivas e muito mais. A implantação de alguns processos em seu laboratório pode ser delegada a um funcionário de nível técnico, de bancada, que fará o operacional.  Ele usará o programa de computador para o CIQ, incluirá os analitos (exames), associará aos equipamentos e associará aos materiais de controle, sempre com sua orientação. Temos visto que essa é uma tarefa no CIQ que quando bem delegada, é desenvolvida com ótimos resultados. Recomendamos que escolha um(a) funcionário(a) que tenha habilidades de uso de computadores e passe a ele (ela) esse encargo, dando prazo para sua execução. Peça que ele (ela) leia o Guia Rápido de Uso do QualiChart e faça contato comigo para que eu possa auxiliá-lo(a). Se você ainda não tem esse funcionário, pense em como capacitar algum. Aprenda a delegar de modo correto e ganhe tempo para cuidar de outras atividades que exigem de fato a sua pessoa.

2.Eu já participo do PNCQ e não preciso fazer o CIQ.

Das vezes que perguntei detalhes sobre esse argumento não souberam me informar se tratava do PNCQ-Ensaio de Proficiência, se seria o PNCQ-Pro-In, ou ambos. Para o primeiro caso a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas conduz um valioso programa de controle externo e faculta aos laboratórios associados a participação em sistema de controle interno. Importante considerar que os dois programas de controle, interno e externo, devem ser realizados, por se tratar de exigência da autoridade sanitária, de acordo com a RDC 302/2005 da ANVISA (Parag. 8 e parag. 9 e subparágrafos). Requer a participação em ensaios de proficiência e a verificação da imprecisão dos sistemas analíticos, sendo que essa última deve ser feita, obrigatoriamente, pelo Controle Interno da Qualidade (9.2.1 O laboratório clínico deve realizar Controle Interno da Qualidade contemplando: …).

De fato, para se obter controle da imprecisão analítica não serve o controle externo. É necessária a prática de Controle Interno da Qualidade, no dia-a-dia. Você pode usar os materiais de controle do Pro-In® em softwares especialistas completos que ajudarão a fazer o bom controle.

3.Eu faço o CIQ com o Excel®

As planilhas eletrônicas são boas ferramentas para cálculos, para estatísticas etc. Mas são genéricas. Uma planilha específica para o CIQ, que possibilite fazer bem o bom controle, em até três níveis, com regras de Westgard, com gráficos de Levey-Jennings para dezenas de analitos, relatórios, assistente de erros  e outras informações de apoio é um desafio e ainda não a encontrei.

Fazendo analogia, imagine que você deseja ver um bonito quadro pendurado em uma parede e quer usar a ferramenta alicate para fixar o prego. Pode até funcionar, mas não é a melhor ferramenta e seu uso pode acarretar problemas, como um dedo machucado e o prego torto e instável. Assim também é fazer o CIQ com a ferramenta Excel, um alicate de boa qualidade, mas ainda um alicate. Pelas minhas buscas na internet não foi possível encontrar uma planilha Excel que faça bem o CIQ. A que encontrei com esse propósito não testa as regras múltiplas de Westgard, não justifica o gasto com materiais, análises diárias do material e os esforços para utilizá-la. Não vale a pena e a prática não resiste um mês, consequência da confusão gerada com a tentativa de usá-la para todos os testes quantitativos.

Se você já gasta recursos com o material de controle e tem o trabalho de realizar as análises, por que não completar com ferramentas especialistas de cálculos para o CIQ que irão de fato te ajudar a controlar seus sistemas? Por que não usar as regras de Westgard para melhores resultados do controle? Se você adotar programas especialistas bem indicados (a ferramenta certa) poderá contar com participação de seus auxiliares de bancada, a quem você delegará funções no CIQ, conforme o item 1, acima. Seu Controle Interno será muito mais efetivo.

O mesmo raciocínio se aplica também para quem realiza o CIQ, comparando o resultado com uma faixa fornecida pelo fabricante. Esse não é um bom controle. A faixa fornecida pelo fabricante não deve ser usada para limites no CIQ, exceto num período inicial, que chamamos de fase em preparo, segundo o Dr. Westgard. O que dizer da impossibilidade de se usarem as regras múltiplas, de calcular o Coeficiente de Variação e de se produzirem relatórios? Se você já faz o principal, que é a corrida analítica do material, já tem gasto com ele, complete com a análise dos dados usando a ferramenta adequada.

4.Eu faço meus gráficos no próprio equipamento

Este é um assunto que provoca diversas discussões, uma vez que há muitos equipamentos com diferentes softwares de controle. Vou apresentar algumas perguntas que representam a prática de um bom controle e que costumo fazer aos profissionais com quem converso. Procure responder com SIM, ou NÃO:

  • O equipamento permite que você use os dados de bula numa fase e depois passe a usar seus próprios valores para limites no gráfico de Levey-Jennings?
  • O software do equipamento exclui as corridas fora de controle (outliers) da série para cálculo dos valores correntes?
  • Você recebe comparações com valores de CV e imprecisão máxima, para avaliação da sua própria imprecisão?
  • Você pode registrar ocorrências e intervenções no sistema, relativas às corridas analíticas?
  • Você tem avaliações sequenciais para detecção de erros sistemáticos (regra 10x) por dias consecutivos?
  • Você pode especificar diferentes conjuntos de regras para diferentes analitos no mesmo equipamento?
  • Você pode consultar o histórico do analito e verificar as corridas outliers anteriores e quais foram as medidas corretivas adotadas?
  • Se o laboratório tem técnicas manuais para testes quantitativos, você tem como tratar os dados de CIQ desses testes de forma prática e correta?
  • Você pode emitir relatórios do CIQ, por períodos e por prazos longos para demonstrar à Vigilância Sanitária?
  • Você pode acessar os dados de todos os seus equipamentos (Bioquímica, Hematologia, Hormônios, Gasometria, Imunologia) de diferentes locais, de sua sala, ou até mesmo de outro prédio, de outra área técnica?

Se você respondeu NÃO a três ou mais dessas perguntas, certamente terá muitos benefícios ao adotar um programa especialista para o CIQ. Ou então, não estará fazendo bem o bom controle.


por Dr. Silvio Basques

Pôster - 10 passos para implantar o controle interno da qualidade